Gaia, nome de uma Deusa, aparecendo na mitologia grega, com origem na palavra Geia ou Gê, representando a Terra, veio a ser por sugestão de um romancista, o nome de uma das Teorias Científicas mais «inovadoras» dos nossos tempos relativamente ao modo como olhamos para este nosso mundo, como nele interagimos e como nele devemos no futuro agir; mais do que isso, Gaia permite-nos no imediato começar a compreender melhor alguns dos mecanismos que regem este mundo, e a uma escala maior, o próprio Universo.
Iniciou-se, muitos dizem, nos tempos modernos por um simples olhar pela escotilha de uma nave espacial. Estavamos nos anos 60, a exploração espacial humanizada tinha começado a dar os seus primeiros passos, e o Homem, tinha iniciado um caminho, que apesar de adormecido, será no futuro, um que ele não poderá deixar de explorar.
A primeira visão do nosso próprio planeta, veio através da famosa frase dita por Yuri Gagarin ao afirmar, quando questionado por ele, “A Terra é azul...”

Daqui, houve um adormecer claro em relação ao nosso planeta e à consciência de que este mundo era um todo, um conjunto e não apenas um aglomerado, como muitos têm tendência a colocar a questão.
Mas, o que é afinal Gaia?
Proposta mais recentemente por James Lovelock, tem sido alvo de muitos: romancistas, ecologistas e até teólogos, pois a sua visão é de tal modo grande, que muitos dos actuais dogmas cairiam por terra, sem valor. Faz relembrar, de que até não há muito tempo atrás, muitos tinham a certeza de que o mundo era plano, de que a Terra era o centro do Universo. Mesmo após Copérnico ter publicado o seu modelo de um universo centrado no sol (apesar de ainda ser baseado em circunferências perfeitas) em 1543, o modelo aceite ainda era de um universo centrado na Terra. O livro de Copérnico, Revolutionibus Orbium Coelestium foi completado antes de 1530 e sujeito a discussão antes da sua publicação levando na altura a que Martin Luther fizesse o seguinte comentário: ‘Este louco deseja reverter toda a ciência da astronomia; mas as Escrituras Sagradas dizem-nos como João ordenou ao Sol para ficar parado e não à Terra.’, Copérnico responde: ‘A Bíblia mostra o caminho para o céu, mas não como o céu é.’.


Muito se caminhou desde aí, mas tem faltado algo à Ciência, que é a consciência de si mesma, a consciência sobre o que a rodeia deixando a tendência classicista de ver os problemas como um caso isolado, através de uma única matéria disciplinada.
Actualmente, essa tendência tem-se invertido, grupos de trabalho são compostos por inúmeras disciplinas, e questões são abordadas de um modo interactivo, aberto e não fechado.
Gaia, em modos simples e leigos, é a aceitação da Terra como um sistema aberto, auto-regulador, baseado na união de todos os «sub-sistemas» de que é composto, trabalhando todos estes em união para atingir o equilíbrio.
Esse equilíbrio, é então um sistema aberto, onde estão em constante interacção diversas variáveis, inúmeros sistemas, que interagindo uns com os outros, trocando entre si compostos e tarefas, conseguem então achar esse equilíbrio.
É uma visão tão simples, tão esmagadora, que é dificil de aceitar... Temos a tendência a querer «complicar» as coisas, um exemplo são algumas das nossas próprias obras, algumas das próprias máquinas criadas por nós que num ciclo de vida útil acabam por extinguirem-se. A Terra, neste exemplo de sistema aberto, aliás qualquer sistema orgânico, não funciona deste modo e até é mesmo esse continuar do seu ciclo de vida que torna o sistema, a máquina estável, onde se adquirem as condições essenciais ao funcionamento em estado óptimo.
Vejamos outro exemplo, um que tendo em conta as actuais preocupações ecológicas, se torna muito relevante, que é a interacção do Homem com o meio.

Muitos são da opinião de que não o devemos alterar, não devemos com ele interagir e sim apenas manter, adoptando uma postura de simples observação, de contenção, mas será esta noção correcta?
Na história do nosso planeta, e recuando até muito atrás, os sistemas foram sempre modificados, mas modificados de um modo contido, numa base de necessidade sem excessos, e o equilíbrio do planeta foi sempre mantido. A alteração, a interacção com o meio ambiente é inevitável, aliás mesmo necessária, a modificação dos sistemas é inevitável e tem sido até uma ferramenta que tem ajudado ao equilibrio.
Obviamente que existe um senão. Esse senão, são os excessos que são cometidos. Uma balança tem dois pratos: ao carregar um, obviamente que se pretendermos que o equilibrio seja mantido, que teremos que agir no prato simétrico. De um modo clássico, e rude, dir-se-ía que é um exemplo de acção-reacção.
Se quisessemos poderiamos extender este exemplo a uma escala maior, não nos limitando ao meio do nosso planeta. Esse exemplo é a Teoria de Gravitação Universal, explicando a força de atracção exercida por qualquer pedaço de matéria no espaço. Existe no entanto uma limitação a este exemplo, conhecido pelo Problema dos N-Corpos e que me faz perguntar: será este problema, uma questão aparecendo da tentativa de novamente ver o problema como um sistema isolado e não um conjunto de sistemas?
Assim sendo, Gaia torna-se viva, ganha um significado no nosso mundo. Os primeiros passos foram dados: a clara consciência de que a questão existe, a aceitação clara por parte da comunidade científica de que os sistemas e o equilibrio são mantidos através de trocas abertas e não fechadas (sistemas auto-reguladores), fazem-nos caminhar no caminho certo para a compreensão deste mundo e do Universo onde ele está contido.
Indo mais além, ousaria dizer que campos como o campo religioso seríam também imensamente beneficiados, ao finalmente conseguirmos achar uma consciência colectiva e trabalharmos como o todo que somos nesta máquina, neste ser que é a união de todos os outros.
Não posso deixar de sonhar e de romancear também eu esta visão, visão essa que aceito tão clara e definidamente, bastando-me para isso ter tomado consciência de mim mesmo no passado e olhar escutando o que nos rodeia.
Espero que o futuro traga uma ponderação sobre o Homem, que este consiga finalmente parar e olhar de um modo correcto, pois, como disse, os excessos poderão não conseguir serem contra-balanceados por tempo indefinido.
É uma batalha desigual, pois quando se puxa demasiado uma corda, esta eventualmente acaba por se partir. Ouçamos a nossa história, os nossos constantes erros, que nos ensinam a olhar com olhos inocentes, olhos descarregados de pretencionismo, de chavões, de arrogância e preconceitos.
Não esqueçamos estas lições...
Alguns links sobre Gaia:
http://hps.infolink.com.br/peco/nage_03.htm
http://www.healing-tao.com.br/artigos/teoriadegaia.htm
http://www.comciencia.br/reportagens/2005/11/02.shtml
http://www.gphfecb.ufba.br/Portugues/Textos/Emerg%EAncia%20de%20propriedades%20e%20teleologia%20na%20teoria%20Gaia.pdf